A pesquisa documental é uma das técnicas decisivas para a pesquisa em ciências sociais e humanas. Ela é indispensável porque a maior parte das fontes escritas – ou não escritas - são quase sempre a base do trabalho de investigação. As fontes documentais devem ser analisadas de forma crítica para que se enquadrem no contexto histórico e social do momento em que foram produzidas. Estes documentos são usados para definir categorias sociais e explicar processos sociais. É a partir dos vestígios preservados pelo tempo que a história é construída/reconstruída. A relação do historiador com os documentos é uma das bases sobre as quais se edifica a pesquisa histórica, pois os documentos são a matéria-prima básica do historiador, indispensáveis para a reconstituição do passado.
O historiador deve considerar várias estratégias de abordagem dos documentos, tais como a análise comparativa, análise do discurso entre outros métodos. A informação contida nos documentos deve ser contextualizada dado que os documentos são feitos por pessoas e que aquilo que os indivíduos e grupos exprimem tem profundas relações com sua situação social, seus pólos de interesses, da vontade de afirmarem o seu poder, do seu sistema de crenças, etc.
Discurso: uma proposta de conceituação e de análise histórica
(Trecho do artigo: Reflexões metodológicas sobre a análise do discurso em perspectiva histórica: paternidade, maternidade, santidade e gênero de Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva).
Compreendemos discurso como uma construção humana coerente, coletiva, dinâmica, e organizada sobre uma determinada temática. Os discursos são, portanto, saberes, ou seja, compreensões produzidas pelas sociedades sobre as relações humanas, tal como define Foucault (1981).
Os discursos não se limitam ao universo das ideias e não antecedem a organização social, tal como apontam os pensadores idealistas, já que é inseparável dela. Fazem-se presentes e constituem as práticas, as relações sociais, as instituições e as representações, ou seja, o social. Assim, tal como aponta Pinto, o social não forma uma totalidade organizada a partir de um centro que determina seu funcionamento, mas é um conjunto múltiplo de discursos (1989:39).
Nenhum discurso é totalmente absoluto, pois ainda que se torne hegemônico, não elimina o outro; busca desqualificá-lo, ignora-o. Também não é autônomo ou imutável, já que nasce a partir de outros discursos e deles sofre a interferência. Neste sentido, podemos afirmar que convivem, numa mesma sociedade, múltiplos discursos, com lógicas e preocupações diferentes, que se complementam ou se opõem.
A constituição dos discursos, como já assinalamos, é inseparável do social. Porém, a sua materialização produz-se num determinado tempo e lugar, em meio a relações de forças, sob diversas linguagens, verbais ou não verbais (gestos, sons, imagens etc), e sempre para um outro. Ou seja, os discursos fazem-se presente nas enunciações dos sujeitos (que pode ser um coletivo ou um indivíduo) que se dirigem a um dado receptor.
Um enunciado não é o discurso: o contém, o expressa, o materializa. Desta forma, um mesmo enunciado pode expressar mais de um discurso ou este pode estar presente de forma involuntária, como um desvio ou um não dito, em uma dada enunciação. Assim, defendemos que a única forma de reconstruir e analisar os discursos e sua dinâmica é através do estudo do enunciado e de sua transmissão, já que só assim é possível verificar como o discurso ganha/produz sentido.
Os enunciados são expressões polifônicas e polissêmicas, que possibilitam variadas leituras. Como se estrutura a partir de leis próprias, específicas de cada linguagem, um enunciado não pode ser analisado como um reflexo direto da visão de mundo de um dado autor ou da organização social na qual este estava inserido. Desta forma, não basta constatar a relação, em um dado enunciado, por exemplo, entre determinados termos. Há que verificar quem enunciou, para quem, de que forma, por que meios, quando, quais eram as relações de força no momento da enunciação e por que esta relação foi estabelecida para alcançar o seu sentido.
Na análise dos discursos em história, portanto, há que levar em conta as particularidades do enunciado selecionado e as regras que o constituem, ou seja, o seu sistema abstrato de organização; os elementos extra-linguísticos à enunciação; e, por fim, a sua recepção, circulação e transmissão. A seguir, apresentarei uma proposta de análise das enunciações verbais textuais, visando o levantamento de dados para o estudo dos discursos.
O primeiro passo no estudo dos discursos em História é constituir o corpus documental, isto é, delimitar as enunciações que serão estudadas. No caso do uso de documentos impressos, são necessárias boas edições de fontes, incluindo uma edição na língua original de redação e, sobretudo, que apresentem as variações textuais dos manuscritos.
Como “a forma contribui para o sentido” (CHARTIER, 2001: 148), se for possível, deve se recorrer a edições em fac-símile ou a descrições sobre os melhores manuscritos e/ou edições, para visualizar a organização espacial do texto, verificando se há marcações, anotações, ilustrações ou qualquer outro elemento que possa evidenciar as formas de transmissão, circulação e apreensão dessas enunciações.
Há que sublinhar que estamos cientes que nenhum documento é capaz de nos fazer reviver o que passou, mas estamos certos de que eles, como materializações discursivas, permitem uma aproximação com o passado. Esta postura é resumida por Eleonora Costa (1994:190):
Em vez de pretender trabalhar os indícios históricos (fontes) com a convicção de que esses nos levam à reconstrução do acontecimento, tomamo-los como uma construção discursiva. Ou seja, a fonte histórica é também um acontecimento que deve ser desvendado como construção discursiva, como monumento.
Como preparação para o estudo das enunciações, é imprescindível, também, familiarizar-se com o que chamamos de sistema de organização da enunciação. Ou seja, há que reconstruir a natureza do documento estudado, sua estruturação, e forma.
O segundo passo é inventariar e ler criticamente os textos que apresentam estudos sobre os documentos e a temática de pesquisa selecionada. Este exercício funciona como uma preparação não só para a análise das fontes/enunciações, mas também pode auxiliar na interpretação dos dados; no levantamento de elementos extra-textuais; quanto à recepção, circulação e transmissão das enunciações; e, finalmente, nos pressupostos que darão suporte às suas questões e hipóteses de pesquisa. Neste sentido, também há que reunir material de apoio, como dicionários específicos, mapas históricos e cronologias, que podem ser úteis no estudo dos documentos, por exemplo, na localização de áreas geográficas que hoje recebem outros toponômios ou para identificação de pessoas e fatos citados.
O terceiro, é definir claramente que tipo de dados se deseja levantar no estudo das enunciações, a partir do quadro teórico previamente escolhido e da problemática de pesquisa. Estes elementos são fundamentais para a escolha de uma técnica de análise. Também é preciso que o pesquisador crie códigos particulares para o registro dos dados obtidos na análise. São recomendados símbolos, tabelas, fichas temáticas etc.
O quarto passo, escolher uma técnica que permita inventariar os dados. A seguir, apresentamos uma proposta:
A- Análise lexicográfica
Nesta técnica, escolhe-se uma palavra chave ou várias - que podem ser substantivos, adjetivos ou verbos ou ainda um único vocábulo em suas diversas categorias, como unidade de análise. O(s) termo(s) devem ser selecionados em função do objetivo da pesquisa. Analisa-se o texto identificando onde a(s) palavra(s) figuram, verificando a que elementos ela(s) se relacionam, se associam ou se opõem. Esta técnica é aplicável a qualquer tipo de texto e permite abordagens quantitativas e qualitativas.
B- Análise semântica
Esta forma de análise atém-se ao estudo do sentido das palavras empregadas pelo autor como indícios de seu discurso. Neste caso também são selecionadas unidades de análise, que, porém, não são termos, mas categorias, como, por exemplo, os adjetivos associados a um personagem em uma certa narrativa. Aplica-se a qualquer tipo de documento e também possibilita abordagens qualitativas ou quantitativas.
C- Análise sincrônica e diacrônica
Com esta técnica, os documentos são analisados à luz de seu contexto literário em perspectiva sincrônica, ou seja, dos textos que lhe são contemporâneos, e diacrônica, dos que o antecederam. É aplicável, sobretudo, a textos que seguem formas fixas de organização, como documentos notariais e poemas, ou que apresentam o mesmo conteúdo narrativo, já que permite apontar as continuidades e as rupturas. O uso desta técnica demanda uma certa erudição, já que exige que um dado documento seja confrontado a outros que lhe são anteriores ou contemporâneos.
D- Análise retórica
Desenvolvida deste a Antigüidade, a análise retórica dedica-se a reconstruir a estrutura e a argumentação, apontando as figuras retóricas empregadas, de um dado texto. É ideal para a análise de textos dissertativos, como os jurídicos, os teóricos e os jornalísticos.
E- Análise da narrativa
Esta técnica é indicada para textos narrativos e/ou descritivos. Nela, busca-se identificar e analisar os diversos elementos que configuram a narrativa e que a tornam um todo de sentido, tais como o gênero literário (épico, drama, lírico) e a forma literária (romance, novela, conto, crônica) em que foi composta, o enredo, as personagens e sua caracterização, a presença ou ausência de um narrador e a sua forma de inserção a narração, se há indicações temporais e/ou espaciais etc.
Passos para análise de documentos históricos
Este é um pequeno roteiro de análise de documentos elaborado para auxiliar os alunos da disciplina de História Medieval da Península Ibérica
1. o texto (o que está sendo dito?; não se trata exclusivamente da “mensagem”)
1.1 os argumentos ideológicos: as teses propostas explicitamente; as ideias sugeridas de forma velada (questão: há, no interior do grupo, conflito/consenso em torno delas?);
1.2 a retórica política: a natureza da linguagem, o tipo do discurso (legal, jurídico, político, ideológico, social etc.), as regras da escrita, os lugares-comuns (o que não precisaria ser “explicado” à audiência);
2. o contexto (em que situação/momento ele é produzido?; não se trata simplesmente da “conjuntura”, como se o recurso a ela pudesse explicá-lo)
2.1 o contexto histórico (ou contexto real):
2.1.1: o momento político, a conjuntura (fatos);
2.1.2: a estrutura política (processos)
2.1.3: o “lugar” em que o documento adquire seu significado “histórico”, tal como percebido pelos seus contemporâneos, e tal como percebido pelos pósteros;
2.2 a intertextualidade (ou contexto discursivo):
2.2.1: este é um documento único?
2.2.2: ou ele faz parte de uma série de documentos?
2.2.3: essa série é homogênea (consenso) ou heterogênea (conflito de posições)?
3. a autoria (quem fala através do documento? que agentes sociais/históricos podem ser encontrados?; não só aquele responsável por sua redação, mas os interesses/valores que falam através dele)
3.1 os protagonistas do discurso: quem fala
3.1.1: o “Sujeito” do discurso, em termos sociológicos, os “representantes sociais”;
3.1.2: as “Forças Sociais” por trás ou que apóiam o discurso, em termos sociológicos, os “interesses sociais” expressos pelo discurso;
3.2 os destinatários do discurso: para quem se fala realmente/idealmente
3.2.1: os apoiadores (tanto a audiência direta, quanto a audiência indireta);
3.2.2: os criticados (tanto a audiência direta, quanto a audiência indireta);